Editing / 7:54

Dudu Neves: Performance Edit

1080 × 1920

A vertical performance edit of Dudu Neves for Giramundo. Seated portraits, expressive close-ups and changing angles alternate against warm textured walls and foliage.

Editing7:53 · Portrait

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Ainda posso ouvir As correntes se arrastar O chicote marcar Marcas que ainda posso sentir Ainda posso ouvir O som da sirene da viatura tocar O gatilho apertar Atirar no menino dali É que arrastaram Cláudia, Rafa Braga e uma jaula Marielle morta vão vir atrás de mim Santa Feira e disposta, luto cravado na memória Menoco, uniforme da escola, não conseguiu reagir E eu ainda tenho que resistir E eu ainda tenho que resistir E eu ainda tenho que resistir Ô, guinê, não me deixe sofrer Tanto assim Ô, guinê, não me deixe sofrer Tanto assim É que eu vim de lá Do lado de lá Me trouxeram pra cá Eu acho que o plano deles era me matar aqui É que eu vim de lá, sou de África, mas da onde eu sou, já que África não é um país. Querem me silenciar, minha história apagar, minha ancestralidade ocultar. Me botar pra trabalhar, salário mínimo, ganhar, pra me tentar, me sustentar na crise desse país. Então, velho, pela minha vida. Me livre da dura, da viatura, do homem do saco, do capitão do mato e da bala perdida. É que assim se foram tantas vidas, sonhos montilados por causa da melanina. É que assim escreveram tantas poesias inspiradas nas dores. Dores, dores como da Tia Dolores que sentiu a dor de perder sua cria. É país sem paz, paz que procria e não cria. Onde o dinheiro se tornou um Deus. Nascemos pobres, somos ateus Sistema capitalista todo dia Mata 71 dos meus E eu? Eu ando tranquilamente na favela onde eu cresci Eu quero andar tranquilamente no país onde eu nasci Mas sei que minha raiz não é daqui Essa terra é de um povo de flecha afiada De cara amarrada, tupã, araguaia Um povo que fala tupi A minha carne trazida para uma terra roubada vendida a troco de ouro e prata, e eles gritavam, é uma nova pátria, eu pedia a justiça de Xangô, enquanto o caboclo também rezava até anoitecer, e assim mais navios chegavam, corpos de outros povos também escravizados, eram filhos de Nanã, Yansã, Ogum, Obaloaê, atotou o bunhe, caô cabeça e lê, meu povo clamou caô, xangô, caô, xangô a gira girou o ogamba tocou, segue o canto e trilhe seus caminhos pelas trilhas de xangô preto, você entendeu? preta, você não entendeu? e se não entendeu é que não foi essa história que ele te ofereceu mas meus versos são todos seus, e eu ainda tenho que resistir Você ainda tem que resistir Nós ainda temos que resistir Ô, Gunier, não me deixe sofrer Tanto assim Ô, Gunier, não me deixe sofrer Tanto assim Hoje, hoje, a dor diaspórica pode ser maior do que a dor física Eu ando dormindo tarde de barriga vazia Com a casa bagunçada, com a mente bagunçada Tendo que ficar forte, forte Pra trabalhar amanhã e suportar mais um dia Na selva de concreto e ego Onde o agro de pop não tem nada Onde você é aquilo que você consome Transmitem anúncios de refrigerante Onde não tem água Anúncios de mac lancha Onde abriga fome e nessa gira Quem não come se acha culpado Dinheiro, o chicote da nova era Dinheiro, o chicote da nova era Dinheiro, o chicote da nova era Dinheiro, eu quero, eu quero, eu quero Reparação Já sentiram o gosto da fome? Esse desespero de querer e não ter? Quanto vale você? Qual é o preço da sua dignidade? Qual é a marca do seu smartphone? Qual é o preço do seu Nike? Qual é o seu conceito de prosperidade ao entender a diáspora da cor? Nos conformamos com a dor na era Onde a empatia só é vista como tática de mercado Volte sempre, sempre Que quiser gastar o seu salário É que quem não vende não faz moeda E quem tem moeda tá endividado Quem tá aportando cédulas cagou no Estado E olha aqui nosso Estado cidadãos desesperados atrás de um futuro mas quem vai empregar a bicha preta? quem vai empregar o ex-presidiário? quem aqui não tem nome sujo? eu me pego fazendo perguntas a um público confuso onde meus versos não merecem um 10 eu não sou bem 10 o bem não é escuro e esse é meu lado obscuro no qual todo dia sente fome eles fazem blackface e se apropriam do meu black money Bit, tere, my money, eu tô sem money. Mas a verdinha é um real, me tira do real. O foda é que dá fome. A inflação nos consome e nos conformamos com roubo. Cadê o dinheiro que tava ali? Rolou, rolou, caiu no bolso. Não me vejo militante, muito menos ativista. Eu tô pique e chau enigma, desvendando meu próprio paradigma. Nesse país onde quem não tem se mata no SUS. Onde quem não tem se torna refém do sistema Capitalista Empresas, doutrinas, cargos, revista Invista Capitalista Pátria roubada, armada, fascista Invista Capital, capitão, capitalista Capital, capitão, capitalista Capital, capitão, capitalista Capital, capitão, capitalista Capital, capitão, capitalista Capital, capitão, capitalista Capital, capitão, capitalista Capital, capitão, capitalista
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